Governo no retrovisor e STF politizado

 em Política

A Semana da Pátria fechou em tom acinzentado. Em Brasília, no coração do poder, a festa transcorreu sem incidentes. Felizmente. Mas sem povo. Infelizmente. O verde e amarelo sumiu da Esplanada dos Ministérios. Festa cívica sem povo é como jogo de futebol sem gol.  Perde a graça. Uma pena. O Brasil precisa superar a polarização insana e abrir vielas de diálogo, respeito e compreensão.

O governo tem muita responsabilidade no climão. Lula é um populista carismático, mas não é um estadista. Está com o olho no retrovisor. O tempo todo. Só os estadistas são capazes de expulsar o rancor da alma e olhar com grandeza para um projeto maior. Não vejo isso no presidente da República. Ele está algemado por uma imensa mágoa e refém do ressentimento. A vingança não é um instrumento de crescimento.

A história mostra que a grandeza de alma é capaz de virar jogos difíceis. O presidente Juscelino Kubitscheck, como já escrevi neste espaço opinativo, foi um estadista de verdade. Após assumir a presidência, e ainda no primeiro mês do seu mandato, o fundador de Brasília enfrentou uma revolta armada contra o seu governo. Militares da Aeronáutica se organizaram em um levante contra o presidente. Sufocada a rebelião, como devia ser, JK anistiou todos os envolvidos. O presidente era um homem sem retrovisor, sem ódios e sem amarguras. Olhava para frente. Tinha a grandeza dos estadistas.

No seu discurso de diplomação, já no amanhecer do seu governo, o presidente Lula disse que venceu “um projeto de destruição do país” e da democracia. Jogou num injusto limbo do autoritarismo, da mentira e do ódio 58,2 milhões de brasileiros que votaram em Jair Bolsonaro.

Ele afirmou que “o resultado destas eleições não foi apenas a vitória de um candidato ou de um partido”. Foi a vitória de “uma verdadeira frente ampla contra o autoritarismo”.

Para Lula, portanto, os cidadãos que votaram em Bolsonaro, quase a metade do eleitorado, aderiram a um projeto de destruição da democracia. A narrativa, construída de costas para a realidade, não foi capaz de captar o sentimento profundo dessa gigantesca parcela do eleitoral: uma forte decepção com a entronização na Presidência da República de um personagem que está em completa dissintonia com valores conservadores legítimos.

Lula não se deu conta de que a cultura conservadora, como ocorre em muitos países civilizados, faz parte do diálogo democrático. Tem, do mesmo modo que os partidários da esquerda, o direito de transitar no espaço político. Querer jogar o 8 de janeiro no colo dos conservadores é uma narrativa que está fazendo água. Basta olhar para a gritante e comprovada omissão do então amigo e ministro do Gabinete de Segurança Institucional do presidente Lula. Os culpados pela baderna, à direita e à esquerda, devem ser punidos. Não pode haver punição seletiva e narrativa encomendada.

O presidente da República continua com o olho no retrovisor. Não pacificou o País. Ao contrário. Lula carrega um passivo inescapável. Sua estratégia tem sido afogar e reprimir a verdade dos fatos. Como pretende evitar que eles se imponham? Com a ajuda de um Judiciário crescentemente politizado.

Recente decisão do ministro Dias Toffoli surpreendeu e estarreceu o Brasil. Ignorando confissões de corrupção e bilhões de reais devolvidos aos cofres públicos, Dias Toffoli determinou a anulação de todas as provas que embasaram o acordo de leniência da Odebrecht (atual Novonor), assinado no fim de 2016. Acordo aliás homologado pelo STF. Toffoli classificou como “um dos maiores erros judiciários da história” a prisão do presidente Lula.

O que Toffoli decidiu é que Lula não só foi absolvido por prescrição, mas porque os crimes não existiram. Algo inacreditável. Espero que os demais integrantes do STF percebam a brutal corrosão da credibilidade da Corte causada por tamanha politização. A Operação Lava Jato pode ter cometido excessos pontuais. Mas será que os desembargadores (TRF-4) e os ministros (STJ), quando examinaram aquelas provas, não perceberam as irregularidades alegadas?

Como disse o jornalista William Waack em sua coluna no jornal O Estado de S.Paulo:  “O STF reitera uma narrativa política, mas não consegue apagar os fatos”.

Um país não pode viver de narrativas, mas da verdade factual. Uma manobra de um ministro do STF abriu o caminho para Lula disputar a presidência da República. Agora, outra decisão tenta apagar a história. Não é por aí. A pessoa do Chefe de Estado merece o nosso respeito. Mas a verdade não pode ser conspurcada.

A pacificação do Brasil passa pelo respeito à verdade e por um sincero esforço de conciliação. Lula não pode governar uma vingança. Precisa ter o que até agora não aflorou: um projeto para o Brasil. A Amazônia, por exemplo, clama por mais desenvolvimento sustentável e não por embargos decididos por ONGs interessadas nos nossos recursos. Milhões de brasileiros esperam saneamento básico, educação e saúde.  Quanto ao Supremo Tribunal Federal não me canso de manifestar meu respeito pela instituição. Mas acho que a Corte exige moderação, recato e despolitização.

Jornalista. E-mail: difranco@ise.org.br

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